Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

Tel'Aviv e o fim de uma grande viagem


Há pouco mais de dois meses, encontrava-me a relaxar numa praia de Tel’Aviv. Cidade moderna, transbordando hedonismo, contrasta imenso com as sociedades tradicionais e conservadoras que conhecemos ao longo desta viagem. Chegavam assim ao fim quase dois meses de um périplo pelo Médio Oriente, com um cheirinho já a casa: um Sábado passado na praia, divididos entre banhos de mar e de sol, acabando a admirar um pôr-do-sol fabuloso, sentados numa esplanada de um restaurante-bar com música de fundo. Agora, dois meses depois de termos desembarcado no Porto, será talvez inevitável uma pequena reflexão acerca desta aventura pelas areias do Médio Oriente, mesmo sabendo que as imagens que ficam e aquelas que passam dependem, obviamente, daquele que as vivenciou.
Os factores físico e humano (os dois ramos da Geografia!) sempre foram, para mim e para a Carla, o motor das nossas aventuras e esta não foi excepção. Parti do Porto rumo ao Cairo com grandes expectativas quanto aos nossos destinos. As paisagens deslumbrantes do deserto sempre me fascinaram e, durante o nosso percurso, não fiquei por uma vez desiludido. Apesar de termos estado praticamente sempre em terreno desértico, a verdade é que todos os desertos são diferentes: a textura da areia e terra, a coloração das rochas, o tom do céu e nuvens e, claro, o carácter dos seus habitantes. Desde a beleza hipnótica do grande mar de areia no Egipto Ocidental, até às planícies sem fim da Síria, passando pelos rochedos de Wadi Rum ou da Península do Sinai e pelas águas do Mar Morto ou do Mar Vermelho, esta viagem foi inesquecível na quantidade e qualidade das passagens naturais que tivemos o prazer de ver com os nossos olhos. E digo-o desta forma porque, por muito revolucionária que seja a fotografia e vídeo e a sua influência nas nossas vidas, a verdade é que nada substitui a experiência directa, o sentir na pele e ossos o que uma imagem nunca poderá transmitir, por muitos pixéis que possa ter.
Outra coisa que aprecio imenso e que retenho após as nossas viagens é a sensação real do espaço físico em que vivemos. Podemos conhecer o mapa-múndi de trás para a frente, saber de cor as fronteiras que os países fazem uns com os outros, mas só temos noção das distâncias e dos tempos quando percorremos o terreno. De Siwa a Palmira, percorremos por terra e mar milhares de quilómetros, atravessando 4 países, e só desta maneira pode nascer em nós um conhecimento real daquilo que é necessário andar e quanto tempo demora. Depois disto, já não é preciso decorar um mapa para saber. Nós estivemos lá!

Mas, tal como quem viaja sabe, as fronteiras não são físicas, mas sim políticas. Vivemos num mundo ditado por leis físicas, mas o homem por muitas mais. Rivalizando com a paisagem, temos sempre presente a diversidade cultural dos povos, por vezes chocante, outras vezes reconfortante. E numa época em que alguns agitam a bandeira do choque de civilizações e alertam para as suas consequências impossíveis de prever, nada melhor que conhecer um pouco melhor o outro lado. E neste aspecto, a cultura que fomos conhecendo ao longo da nossa viagem tem, como todas, um lado de luz e outro de sombra. Os mesmos que erigiram monumentos fabulosos, que criaram escolas de arte e ciências, que sabem receber os forasteiros e fazê-los sentir quase em casa, são os mesmos que mataram e escravizaram ao longo dos tempos, em nome de algo que não conheciam, e que hoje menosprezam metade da humanidade com base unicamente na diferença de género. Estou a falar deles, mas também podia estar a falar de nós. Somos diferentes? Sim. Mas também somos iguais.
Passando por locais cheios de história, pudemos absorver um pouco disso e enriquecer a nossa visão dos outros, e de nós próprios. Território disputado ao longo de milénios, só é possível perceber um pouco melhor as razões e os porquês indo lá, e percorrer as ruas das cidades, os campos, os locais religiosos e históricos. Calcorreando estas terras, desde o berço do Egipto até à Terra Prometida, fizemos o nosso Êxodo e pisámos a mesma terra que foi pisada por Homens e Deuses, a mesma terra testemunha de mensagens de paz e esperança, mas que absorveu o sangue e corpos daqueles que as ouviram mas não as compreenderam. Foi assim no passado, e é assim hoje. Como será o futuro?
Pessoalmente, devo dizer que tenho sempre prazer em voltar a casa. Onde quer que vá, lá no fundo nunca desligo das pessoas que gosto, dos ambientes e cheiros familiares e nunca, mas nunca, me senti como me sinto em casa. Talvez não seja um verdadeiro viajante! Mas ao mesmo tempo adoro viajar. Ou melhor, mais do que isso, adoro ter viajado. Adoro que tudo aquilo que vi e experimentei seja uma oportunidade única de perceber melhor o mundo em que vivo, saber que aquilo que me rodeia é apenas um grão de areia num vasto deserto. E, acima de tudo, viajar permite-me ir reconhecendo que, quanto mais pessoas e lugares conheço, só sei que nada sei.

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

By any means...

Depois de ver alguns documentários do Charley Boorman lembrei-me que esta nossa viagem poderia ter o mesmo nome que a série televisiva criada pelo companheiro de Ewan Macgregor - By any means! Neste nosso périplo pelo Médio Oriente experimentamos um conjunto de meios de transporte, alguns mais convencionais outros menos, mas todos eles foram impares e permitiram-nos diferentes perspectivas do território.

1º AVIÃO: Começamos, como a maioria dos viajantes, por atravessar o nosso continente a bordo dum avião. Do Porto para Madrid, de Madrid para Roma e de Roma para o Cairo... foram TRÊS viagens de avião!!! Estavamos a preparar-nos para uma viagem por territórios (teoricamente) "hostis" por isso aproveitamos para nos documentarmos um bocadinho melhor a bordo. Regressamos igualmente de avião mas de Tel'Avive para Roma, de Roma para Londres e de Londres para o Porto.

2º TÁXI: Uma vez no Cairo tinhamos que chegar a Khan al-Khalili, o bairro muçulmano da cidade e o local por nós eleito para iniciar a nossa viagem. Depois de regatear bastante com mulheres e homens táxistas lá conseguimos um táxi (a cair de podre) que aceitou levar-nos por 60LE! Nada mau. Até fizemos "amigos" entre os taxistas. O Rui foi "baptizado" de Mustafa e eu de Fátima como nomes muçulmanos!!! Foram muitas as viagens de táxi que fizemos nestas semanas. Mas algumas guardamos com mais carinho, especialmente pela simpatía dos taxistas. Uma, em Kharga, nos óasis do Deserto Ocidental não esqueço. O nosso taxista era um ancião tão curtido que passava o tempo a dizer que não sabia falar inglês mas ia falando... apontava para todo o lado e dizia "Kodak". Era delicioso... eu, para variar tinha que tirar a fotografia! Não podia desiludir o nosso anfitrião. Foi uma viagem fantástica a que ele nos porporcionou pelas redondezas do oásis. O seu nome... nunca cheguei a perceber mas gostei do pormenor da "Nike"!!!

3º AUTOCARRO LOCAL: Um viajante faz inevitavelmente dezenas de viagens de autocarro porque permite-nos chegar a quase todos os lugares de forma bastante económica. Os autocarros locais são os mais característicos e uma autentica aula de cultura e modos de vida. Desde os autocarros urbanos em Alexandria, onde se passa o dinheiro do bilhete de mão em mão até chegar ao motorista e depois se aguarda pelo troco, aos autocarros nocturnos no deserto egipcio cheios de homens machistas, passando pelos autocarros a cair de podres no deserto da Síria, a nossa viagem foi recheada de aventuras a bordo deste meio de transporte. As viagens nocturnas deixaram-nos com o corpo moído e cheios de dores nas costas. No entanto, proporcionavam-nos "pernoitas" baratas ja que evitávamos o pagamento do alojamento numa noite. Sendo assim, aproveitávamos sempre que nos era permitido. Foram muitas as horas dormidas nos autocarros, as pessoas que conheciamos, as conversas que tinhamos e as magníficas paisagens que cruzávamos. Apesar de nos estarmos sempre a queixar destas viagens, elas são concerteza um dos pontos altos de qualquer viagem.

4º COMBOIO: Para um amante dos Caminhos de Ferro como é o Rui, é completamente impossível contornar uma boa viagem de comboio. Sempre que temos possibilidade, optamos por este meio de transpote. Este ano foi mais díficil porque a Jordânia, a Palestina e a Síria praticamente não têm rede ferroviária pelo que nos restringimos a utilizar o "cavalo a vapor" no Egipto e em Israel.
Entre o Cairo e Alexandria atravessamos o magnífico Delta do Nilo vislumbrando o pôr-do-sol entre os minaretes das mesquitas, os pombais e os campos de arroz. Uma viagem memorável. Entre Asyut e Assuão acompanhamos o curso do Nilo, desta vez em direcção a montante, e fomos entrando no auge da Civilização Faraónica.
Em Israel, tendo sempre a companhia dos milhares de soldados que se deslocam de comboio, percorremos o litoral do país circulando sobre carris. As estações e os comboios são modernos, cómodos e sempre "bem guardados"! Nunca pudemos transportar bombas ou armas já que os detectores e os soldados israelitas nos demoviam dessa intenção mas... quem sabe não fica para a próxima! É surreal as vezes que nos perguntam "Bomb? Gun?" e nós temos que responder "No bomb or guns"!

5º TÁXI PARTILHADO: Os táxis partilhados são uma excente forma de deslocação nos "ditos" países em Vias de Desenvolvimento. A ideia é partilhar um táxi com outras pessoas que vão para o mesmo destino e assim conseguir preços mais baratos. É extremamente económico e muito mais ecológico porque diminui o número de carros particulares que circulam (temos muito aprender com estes países). Sempre que foi possível recorremos ao táxi partilhado, especialmente para cruzar fronteiras. Foi o que fizemos entre a Jordânia e a Síria, nos dois sentidos. Ficou bastante económico, sendo que a viagem entre Amã e Damasco ficou por 12€ por pessoa. O táxi aguarda por nós nas fronteiras e os taxistas (que não falam inglês) tentam auxiliar-nos da melhor maneira nas formalidades. Comparativamente com os autocarros são muito mais rápidos e o preço é quase o mesmo.

6º FELLUCA: As fellucas são barcos típicos do Nilo e movimentam-se graças à força do vento. O Verão não é propriamente a melhor estação para andar de Felluca porque os ventos vêm essencialmente de sul, o chamado Vento de Sudão, e é muito quente e com pouca força. Só ao final do dia, uma brisa permite viajar no Nilo a bordo da Felluca. A nossa primeira experiência foi no Assuão à volta da ilha Elephantina. Mas... não havia vento e os nossos remadores tiveram que fazer exercício físico intenso durante duas horas. O Rui ficou no leme e eu... tirava fotografias!!! Alguém tem que fazer o trabalho duro!
Em Luxor, voltamos às fellucas e, agora com vento, disfrutamos do verdadeiro prazer de navegar no Nilo como tantos exploradores oitocentistas o fizeram.
Inicialmente tinhamos a pretensão de navegar o Nilo de Felluca entre o Assuão e Edfu, a sul de Luxor, mas as temperaturas registadas e a falta de vento no Verão fez-nos alterar os planos. Para quem tiver oportunidade de viajar no Egipto noutras estações do ano penso que deve fazê-lo. Será certamente um dos pontos altos de qualquer viagem.

7º BARCO DE CRUZEIRO: Excluída a possibilidade de descer o rio de felluca optamos pelo barco de cruzeiro. Com MUITO mais comodidade do que estamos habituados fomos aproveitando os dias a bordo para descansar, tomar banhos de piscina, comer e disfrutar das magníficas paisagens do Nilo vistas do andar de cima! É uma excelente forma de viajar embora incaracterística, mas ao mesmo tempo reconfortante quando estão cerca de 50ºC no exterior.

8º FERRY: Apesar de viajarmos no deserto fartámo-nos de andar de barco. Entre o Egipto e a Jordânia atravessamos de ferry, uma forma rápida e eficaz de cruzar a fronteira entre estes dois países. Tal como dezenas de viajantes mochileiros apanhamos o ferry em Nuweiba e cruzamos o Golfo de Aqaba. Na viagem vemos a costa da Arábia Saudita. Tão longe e ao mesmo tempo tão perto! O Rui ainda me lança o isco "vamos para a Arábia Saudita?". Ele sabe que eu não resisto a um bom convite! Mas não... tive que declinar! O objectivo, desta vez, é outro - Jordânia e Síria. Quem sabe num futuro próximo?

9º LANCHA: Água... outra vez um transporte aquático? Afinal vocês não estiverão no deserto?! É o que devem pensar mas não é verdade. A verdade é que estivemos no deserto mas andamos muito de transporte aquático porque, mesmo no deserto, o mundo gira à volta da água.
Em Hurghada, na costa oriental do Egipto no Mar Vermelho, apanhamos uma lancha que nos levou até à Ilha Giftun. Andamos de lancha pelo Mar Vermelho e também "viajamos" nos corais embora, desta vez, a dar à barbatana...
10º BALÃO DE AR QUENTE: Ahhhh... A Terra vista do céu!!! É LINDA! Já tinhamos experimentado o balão de ar quente na China quando fizemos um passeio em Yangshou mas em Luxor foi ainda melhor. Na China ficamos fãs mas agora ficamos viciados. Se o planeta Terra é magnífico a sua verdadeira magnificiência só é perceptível quando o vemos do céu... com os olhos de uma ave!
Em Luxor, arranjamos um passeio de balão por 60€ (marcamos antecipadamente pela internet), proporcionando-nos uma perspectiva completamente diferente das maravilhas do Egipto. Para além das habituais atracções turísticas como os templos de Hatshepsut, Karnak e Luxor, o Vale dos Reis e das Rainhas, o Templo de Ramsés ou os Túmulos dos Nobres, vemos a razão porque todos aqueles templos e túmulos ali estão... o Nilo e os seus terrenos férteis. É muito interessante sobrevoar os Colossos de Memnón ou o Templo de Ramsés mas, para mim, os campos irrigados do Nilo fizeram as minhas delicias. Os agricultores trabalham os campos, os animais auxiliam na lavoura, os canais de irrigação transportam as águas do Nilo e definem a área ocupada pela população. Vemos as aldeias rurais afastadas de Luxor e a passagem dramática entre os campos agrícolas e o deserto marcada pelo final dos canais. Um passeio indescritível e obrigatório para quem deseja conhecer este país.

11º CAMELO: No deserto... camelo! Sim, é verdade mas não é de todo verdade. Estivemos um mês no Egipto e tirando um passeio em Assuão, não andamos de camelo. O nosso ponto alto de camelo foi na Jordânia, no deserto de Wadi Rum. Depois de dormir num acampamento beduíno acordamos bem cedo para regressar à aldeia de Rum de camelo. Os bichos até eram simpáticos e meiguinhos mas as selas eram "especialmente" duras! Tão duras que duas horas parecem dois dias e eu fiquei tão dormente por baixo que a certa altura pensei que estava em dilatação para entrar em trabalho de parto (e acreditem não é uma figura de estilo)! No entanto, as vistas são surpreendentes e permite-nos o tempo suficiente para admirar a paisagem e sentir verdadeiramente a beleza do local.

12ºJIPE: No Deserto Ocidental do Egipto os camelos não são utilizados como meio de transporte. O Camelo praticamente não existe e ninguém se aventura pelas areias do deserto sem ser de jipe. Outrora possivelmente foram utilizados mas o camelo nunca foi um animal autóctone por aqui. Foi de jipe que atravessamos as areias amarelas que se perdem no horizonte, as dunas que se erguem vertiginosamente e os ergs que se individualizam nas areias. Atravessar o grande Mar de Areia, no Deserto Líbio, foi um dos pontos altos da nossa viagem e é com muita saudade que o recordamos. A viagem de jipe entre Siwa e Bahariya (que nos custou uma fortuna - 200€!) valeu cada cêntimo porque nos permitiu experiênciar uma realidade ímpar no deserto. Por estradas que desaparecem escondidas pela areia ou que, pura e simplesmente já não existem, lá fomos atravessando uma das regiões mais inóspitas do planeta. Foi magnífico. Entre os dois oásis passamos mais de 10 check-points o que é surreal porque estão no meio do deserto e em muitos dos casos nem existe estrada e podem ser simplesmente contornados!

13º CARROÇA: Pois bem, se no Egipto houvesse um prémio para a nossa melhor viagem, o prémio teria ido para o... ALI BABÁ! O Ali Babá foi o burro que puxou a nossa carroça numa das viagens que fizemos em Siwa. Neste oásis do deserto há muito poucos carros, motas e quase toda a população se desloca de carroça. Os táxis são carroças e mesmo para quem não quer... não há alternativa! Se querem visitar Siwa têm de se adaptar ao "siwa style".
O Ali Babá conduziu-nos orgulhoso e eficazmente pelo oásis mas a certa altura tropeçou e ajoelhou-se no meio da estrada de terra batida. De joelhos completamente esfolados e exibindo feridas cobertas de sangue na cabeça lá prosseguiu viagem. Nós e Mohamed e Ibraim, os nossos "motoristas", "arroxamos" juntamente com o Ali Babá. O nosso primeiro acidente rodoviário nesta viagem!

Os dois rapazes levaram-nos a visitar a Ilha de Fatnas, no lago de Siwa. Pelo caminho iam-nos mostrando o oásis e explicando como se vive no deserto. São dois jovens fantásticos. A carroça e o Ali Babá são o seu ganha pão e assim auxiliam a economia familiar. Os recursos económicos são muito poucos porque não há muitos empregos. No entanto, o futuro será certamente risonho para estes dois jovens que falam muito bem inglês, francês e italiano. Têm 13 e 14 anos e aprenderam tudo com os turistas. Português não lhes interessa aprender porque não vêm muitos para aqui! Portugal? Só conhecem o Manuel José que treinou um clube de futebol no Cairo. Cristiano Ronaldo? Quem é? Nunca ouviram falar. Delicioso este oásis nos confins do Egipto.

14º BURRO: O Ali Babá é o maior mas não o podiamos levar connosco. No entanto, ficamos fãs dos burros e decidimos experimentar andar de burro na Jordânia. Depois de fazer trekking durante dois dias em Petra estavamos todos partidos e decidimos inovar. Arranjamos dois burros para subir ao Mosteiro. O meu era hiper-activo (nada melhor do que a experiência profissional para saber diagnosticar estas coisas) e o do Rui era o "mono". O burro do Rui ia à frente e tentava controlar os avanços do meu que tentava a todo o custo ultrapassar e escalar os trilhos vertiginosos de Petra. Empurrando o rabo do burro do Rui, o meu burro conseguiu "desviar para canto" o adversário e subir montanha acima. Só vejo o rapaz que nos seguia (dono dos burros) a correr atrás do meu burro e tentando demovê-lo. Eu tentava travá-lo mas o facto de não ter carta de condução deste veículo condicionou-me um bocado! Quando o rapaz conseguiu alcançar o meu burro descobrimos que o burro do Rui decidiu inovar e começou a descer. Foi uma aventura termos saído dali inteiros. Perdidos de riso, depois de sairmos dos burros, decidimos percorrer o resto do trilho a pé. Confio mil vezes mais nas minhas pernas cansadas do que num burro desperto!

15º BICICLETA: Em Israel, no Mar da Galileia, decidimos fazer uma viagem de "circumnavegação" à volta do mar. O meio de transpote, a bicicleta. São cerca de 63 km de estradas que circulam o mar. Porque não? Mal pensado. Depois de viajar no Médio Oriente quase dois meses esta viagem foi super penosa. Mal começamos a peladar, por volta das 7.30h da manhã, descobrimos que já nos doiam as pernas e os joelhos mas achamos que depois dos músculos aquecerem ia passar. Afinal, não passou. Talvez porque parassemos muitas vezes para visitar as igrejas e museus. O certo, é que quando chegamos a Capernaum (teoricamente a aldeia de Cristo) já estavamos feitos num Cristo. Só tinhamos percorrido 23km mas parecia que já tinhamos andado 100. Com subidas e descidas sucessivas, cerca de 35ºC e abafados pelo facto de estarmos a 213m abaixo do nível médio das águas do mar fomos resistindo enquanto podíamos e fomos pedalando até às Colinas de Golã. Pelo menos entramos nas famosas Colinas de Golã de forma inédita. Mas pouco tempo lá estivemos. Depois de percorrer cerca de 8km atiramo-nos para o chão e resolvemos desistir. O rabo parecia o de um macaco e acho que desenvolvemos calor! Era hora de almoço e não aguentávamos mais. Estávamos a ficar sem água. Resolvemos por-nos à boleia. Eu, Carla Mota, à boleia nas Colinas de Golã... se o meu paizinho soubesse!!!
Eu bem tentei mas os poucos carros que passavam eram jipes da ONU e nenhum teve a amabilidade de nos levar. Voltamos a peladar até arranjar um autocarro que nos trouxe de volta a Tiberiades. Foram apenas 40km de bicicleta mas uma aventura para recordar.
Apesar de experimentarmos diversas formas de nos deslocarmos no terreno, as nossas botas foram as grandes companheiras. Fizeram centenas de kilometros a pé, sempre prontas e cheias de entusiasmo! Foram umas fieis companheiras que já nos acompanharam por outras tantas terras pelo mundo, desde a Índia, Nepal, Chile, Bolívia, Equador, Sibéria, Mongólia, China ou Marrocos. São elas as verdadeiras "heroínas" deste "by any means"!

Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

E onde dormimos nós na Jordânia e na Síria?

E depois do Egipto?? O que se seguiu??? Uhmmm... Suspense!!! Ok! Não foi nada de especial! Simplesmente atravessamos para um país magnífico - Jordânia!!
Entrar na Jordânia a partir do Egipto é bastante fácil e económico. Em Nuweiba, apanhámos um ferry que rapidamente nos levou para a Jordânia. Mas, o "rapidamente" tem um preço!! O Ferry custou cerca de 50€ e permitiu-nos numa hora atravessar o Golfo de Aqaba. Chegando à Jordânia o visto é gratuito e rápido de obter. Valha-nos isso!
Enquanto esperávamos pelos vistos conhecemos um casal peruano que também estão a viajar pelo Médio Oriente. Tal como nós, vão para Wadi Rum. Como já não há autocarro àquela hora decidimos dividir um táxi pelos quatro. E assim foi. Por 30JD apanhámos um táxi que nos levou para a aldeia de Rum. Chegamos bem tarde e tanto nós como os peruanos estavámos interessados em dormir numa tenda da Rest House. Ainda chegamos a pagar a tenda mas quando nos dirigiamos para lá o empregado apercebeu-se que já estavam todas ocupadas. Ohhh!!! Sendo assim... tivemos que dormir no telhado! Pagámos 2€ por pessoa para dormir sob as maravilhosas estrelas de Wadi Rum. Montaram-nos uns colchões, nós estendemos o nosso saco-cama e ainda jantámos a pouca comida que tinhamos trazido do Egipto. O silêncio era absoluto e a noite toda para nós. Haverá melhor?
No dia seguinte saimos bem cedo para o deserto depois de tomar o pequeno-almoço rodeados por um cenário "Lawrenciano". Durante o dia percorremos o deserto arábico de Wadi Rum e a noite reservou-nos uma dormida num acampamento. Com a companhia de um grupo de motards polacos e três jovens beduinos assistimos a um maravilhoso pôr-do-sol, jantamos e ouvimos os beduinos cantar. Fomos dormir vendo passar as estrelas cadentes que teimavam em povoar o céu do deserto.
Depois de regressar à aldeia de Rum de camelo (percurso que demorou mais de duas horas e viria a trazer lesões no traseiro para as próximas semanas - as fotos não podem ser reveladas porque são MUITO chocantes!) apanhamos um táxi para Wadi Musa, a cidade mais próxima de Petra. Tivemos que apanhar um táxi porque o único autocarro que sai de Wadi Rum para Petra é às 8h da manhã e nós só chegámos à aldeia às 11h. Como não queriamos perder um dia apanhamos o táxi por 40JD. O nosso taxista era uma simpatia e fartamo-nos de conversar durante a viagem (embora eu estivesse a cair de sono).
Em Wadi Musa alojamo-nos no Petra Gate Hostel. O local não é mau, mas não é o melhor sítio para se ficar. Os quartos são razoáveis, com WC e ventoínha. A dona, chinesa, tenta fazer tudo para nos agradar. Dormimos aqui duas noites; no entanto, se voltasse a Petra iria para o Valentin Inn, pois é mais barato e mais vocacionado para as necessidades dos backpackers. Foi aí que conseguimos arranjar um motorista que nos levou a fazer o tour da Kings Highway, de Wadi Musa a Madaba, passando por Shobak, Karak, Dana, Wadi Mujib, etc. Conseguimos o tour por 45JD para os dois. Penso que não foi mau porque no hostel onde estavamos a rapariga queria 70JD!!!
Uma vez em Madaba, optamos pelo Black Iris Hotel. É um bom local embora um pouco clássico. Caro, mas com um leque de opções para quem quer fazer tours pela Jordânia. Optamos por experimentar aqui o tour do Monte Nebo, Bethânia, Mar Morto (Praia de Amman) e Mar Morto Panorama. Foi um dia muito bem passado e valeu bem a pena.
Deixamos Madaba e rumamos a Amã, capital da Jordânia, no autocarro da hora do almoço. Uma vez na capital, ainda andamos meios desorientados (temporariamente porque uma geógrafa nunca se desorienta!) para encontrar a baixa da cidade e o nosso hostel. Com a ajuda da população local lá conseguimos e instalamo-nos no Cliff Hostel, uma instituição para mochileiros. O Andrew, o dono, é um senhor com os seus 60 anos, SUPER simpático e sempre bem disposto e pronto a ajudar-nos. Foi possivelmente a pessoa mais simpática que conhecemos nesta viagem e que me deixa muitas saudades. Hoje dirige um hostel para mochileiros mas em tempos trabalhou e estudou inglês na Universidade de Bagdad, no Iraque. Vê com amargura no que o país se transformou e, embora ainda não tenha lá regressado, ouve com desgosto os relatos que os amigos lhe contam. Foram boas as conversas que iamos tendo. O Rui foi muito mais privilegiado do que eu porque era ele que cozinhava no Cliff enquanto eu ia tomar banho.
Os quartos eram muuuuito simples: duas camas só com colchão e sem lençóis, um pequeno lavatório (avariado) e uma ventoinha. WC... fraquinho!!! Por 9€ o quarto... em Amã... não era preciso mais. Foi fantástico. É impressionante como o conforto é tão relativo! O importante é mesmo sentirmo-nos bem.
Como estavamos em pleno Ramadão as noites eram muito dificeis para dormir. Não pelo (des)conforto das camas, mas pelo constante clima de festa das ruas. Entre as 3.30h e as 4.30h da manhã ninguém dorme nesta cidade e os restaurantes, cafés e snacks de rua estão cheios de movimento. É a última refeição do dia... depois do pequeno-almoço, só voltam a comer às 19.30h. Por isso o barulho nas ruas é ensurdecedor.
Beber... só dentro do quarto! Estavamos em pleno Ramadão. Assim, quando saimos do Cliff as garrafas amontoavam-se junto às paredes!
Foi o Andrew que nos arranjou um tour para ver cinco dos castelos do deserto jordano, na estrada que vai para o Iraque. A sua ajuda foi sempre preciosa porque escrevia-nos em árabe o nome das estações de autocarro, o destino que queriamos apanhar, e até nos instruía nas técnicas de "marralhar" os preços. Sendo assim, assentamos arraiais por aqui durante três noites. Fomos a Jerash e viemos e só depois é que atravessamos para a Síria.
Atravessamos para a Síria num táxi partilhado com um motorista que não falava inglês mas teve a destreza para "surrupiar" uma t-shirt e uma toalha ao Rui. Dividimos o táxi com um iraquiano bastante simpático embora não conseguíssemos grandes conversas para além do possível pelos gestos e trocas de olhar. Em Damasco despedimo-nos e apanhamos um autocarro para Palmira. Depois de esperar duas horas na estação e percorrer o deserto sírio com um motorista cheio de sono e constantemente a adormecer ao volante, lá chegamos a Palmira ao fim de uma viagem de 5 horas.
Escolhemos o Hotel Ishtar, embora fosse caro demais. É possível ficar em sítios mais económicos e talvez com os mesmos serviços. O quarto era bom e tinha um ar condicionado maravilhoso. No entanto, faltava-lhe algum carisma. Conseguimos ver o pôr-do-sol (a muito custo) e o nascer do sol nas ruínas e terminamos (em beleza) a jantar "à patrão" num restaurante em frente ao complexo. Um final de dia maravilhoso para comemorar a nossa entrada no que seria, provavelmente, o país que mais nos surpreendeu pela positiva nesta viagem.
Depois de deambular pelas ruínas no dia seguinte, voltamos apanhar um autocarro em direcção a Damasco. Os sírios são tão simpáticos que em quatro horas de viagem conhecemos toda a "tripulação"! Vamos com um casal francês e um casal canadiano. Para além disso são mais três sírios, um militar e outros dois. São tão simpáticos e prestativos que o motorista queria-nos deixar na estrada principal da cidade (tipo circular externa) e o militar não deixou e obrigou o motorista a deixar-nos em frente à Porta Al-Jabia, a entrada principal do Souq de Damasco e bem perto do nosso hostel. Só posso dizer bem dos sírios porque são do mais genuíno que já encontrei por todas as viagens que fiz.
De mochila às costas procurámos um hostel "budget". As hipóteses eram reduzidas. O Al Haramain Hostel estava cheio, o Al-Rabie Hostel, onde acabamos por ficar, só tinha um quarto duplo disponível e queria 1800SY por noite. Não tinhamos grande hipótese e viamos o tempo passar. Resolvemos voltar para trás e aproveitar o quarto duplo. Ainda bem que o fizemos. Para além de termos o privilégio de acordar de noite com um gato a roçar-nos nas pernas (acreditem que é horrível) tinhamos um espaço comum maravilhoso. O hostel é fenomenal. É uma casa típica damascena com uma fonte no meio do pátio interior. As paredes têm representações e pinturas... parece uma galeria "borgonhese". À noite, sentávamo-nos no pátio, bebiamos sumos naturais e fumávamos sheesha de maça. Que maravilha!!! Aquelas noites de Damasco foram inesquecíveis. Tranquilas, relaxadas e genuinas, tal como o país.
De Damasco, voltamos de táxi partilhado para Amã, na Jordânia e de novo ao Cliff Hostel. O Andrew ficou feliz por nos rever e nós por o rever a ele. Outro quarto, mas a mesma simpatia. Só ficamos uma noite porque na manhã seguinte, bem cedo, apanhamos um autocarro para a fronteira com Israel. Com o Andrew deixamos uma recordação de Portugal - uma t-shirt dos Amigos da Montanha - e muita vontade de voltar, à Jordânia e à Síria. Quem sabe um dia?

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